domingo, 18 de outubro de 2015

Capítulo 8 - Freddy e Eu

Frase: mais vale a vida que duas bolas
Música: Dogs, Pink Floyd

Freddy, um sujeito canino muito pacato para quem o vê de longe, ao meu lado, trotando à guia curta, por ocasião de seus passeios sanitários matinais ou vespertinos; ou ainda, para quem o surpreende em um de seus frequentes cochilos, quando seu corpo tremelica, no que penso, sonhando com gatos, ratos, chinchilas e coisas de cachorros, pois bem, esse Freddy, minha gente, é um cara mau. Não mau como o Marley, que em vida destruiu sofás e engoliu objetos – embora meu canídeo também tenha feito isso com tal, senão maior, maestria – não... não mau dessa forma, já que essas coisas, vistas com a complacência que todo animal doméstico merece, não passam de travessuras engraçadinhas, das quais os donos, a despeito dos prejuízos, se orgulham ao narrar (engordando a poupança com a venda dos livros, é claro). Falo, amigo leitor, de maldade pura mesmo, maquiavelismo animal, um ódio primordial instintivo e seletivo, que definitivamente o envia para longe do rol dos cães sociáveis e que, ao contrário do que ocorre ao humano do Marley, tem me gerado despesas constantes, uma inclusive bem recente, logo falo dela. Há quem (minha mãe) atribua isso à sua origem, meia pitt bull, meia akita; eu sou menos determinista e creio se tratar de uma maldade planejada e por diversão sádica.


  Quando me lembro das duas vezes em que esse malfeitor comeu o banco da minha moto, ou quando ele destruiu uma almofada que, furtivo, subtraiu de nossos olhares, ou ainda das inúmeras vezes que carregou e escondeu chinelos e tapetes pelo quintal, sem contar da destruição semitotal da já velha pintura do veículo paterno, não é sem afeto e um risinho leniente que o faço. Essas traquinagens, totalmente perdoáveis, são o que de mais divertido nossos amigos peludos podem oferecer. Seria bem legal poder parar a história por aqui e ter apresentado mais um cachorro como os outros. Mas não, o devorador de bancos não é um animal comum. Torno a dizer: ele é mau.

Seu comportamento nos primeiros dias em nosso convívio já denunciava um ser frio e calculista, que não poupava esforços para mordiscar os calcanhares das vítimas na menor das distrações, quase sempre de nós mesmos de casa ou os de alguma visita esporádica. Acresça sua disposição inata para pular nas pessoas com destreza tal que a presa, depois de tentar em vão se desvencilhar de suas patas e desviar das mordidas nas mãos, se dava por vencida e clamava pela ajuda de um terceiro. É bem verdade que algumas pessoas se tornaram amigas dele, sobretudo as que passavam pelo muro da antiga casa e ofereciam cafuné ou um biscoitinho, no entanto, como eu disse, seu ódio é seletivo e não tardou para que ele fizesse sua primeira vítima.

 Lembro-me de estar em viagem e receber uma ligação do meu primo, que era vizinho na época, narrando as peripécias que o meu quadrúpede vinha promovendo nos entornos, após sua fuga por uma brecha do portão. Dois foi o saldo de feridos dessa feita e a um deles me coube assegurar os custos dos medicamentos, bem como visitas frequentes para acompanhar o desenrolar da situação, além de um boletim de ocorrência por que tive de prestar esclarecimentos pouco tempo depois. Daí pra frente, seguiram-se outros episódios de perseguição a transeuntes, susto a pedestres distraídos e, já na nova moradia, ataques a convidados e até mesmo uma mordida bem marcante no braço de minha irmã - essa perdoada dado seu (o dele) estado temporário de entorpecimento pós doação de sangue. Foi há cerca de vinte dias, porém, o ponto alto da sua carreira de vilão canino e o segundo B.O. que o Freddy me rendia.

Durante um moderado, porém longo temporal que se estendeu pela madrugada, a tranca do portão que dá para a rua entrou em curto-circuito liberando sua abertura. Por conseguinte, nosso protagonista, que de bobo não tem nada, saiu de sua meditação soturna e ganhou o espaço público, onde deu início a um espetáculo que lhe renderia má fama por todo o bairro. Nós, que como quase todas as pessoas da cidade dormíamos àquela hora, fomos acordados por um telefonema da vizinha que dizia, desesperada, tê-lo visto às dentadas com um rapaz que por ali passava. Ao sairmos para a rua nada vimos, a não ser a silhueta do molosso que a essa hora ia desaparecendo no horizonte chuvoso. De pijamas mesmo, saí no encalço do meliante, que ao notar a perseguição acelerou o passo, de modo que não pude segui-lo por muito tempo.

Enquanto meus pés engrossavam com a lama da terra tombada dos terrenos do bairro e minha roupa ia ficando ensopada pela chuva, meu pai me alcançou de carro e começamos a patrulha pelas redondezas. Minha mãe foi a pé por outro lado e bem passamos uns vinte minutos a  procura do fujão até que minha mãe o surpreendeu no quintal de uma casa do bairro, brigando com outros de sua espécie e dando um tremendo susto na moradora que chegou a sair seminua de seu leito para averiguar o que se passava. Cerca de meia hora depois voltávamos para a casa indignados com a situação, enquanto o malandrão, apesar das feridas de batalha, parecia sorrir, zombando de nossas caras de palhaço. Ao menos foi essa minha leitura de sua boca aberta, dentes a mostra, agitação corporal, respiração ofegante e nenhum pingo de arrependimento nos olhos.

Dois dias depois apresentou-se a vítima, um rapaz muito bem-educado e que se esforçou para entender a situação. Além das marcas dos dentes em sua mão, ela também alegava ter tido seus fones de ouvido destruídos e um tênis rasgado, devido ao ataque. Dei-lhe o suporte necessário e pus-me a disposição para acertar os prejuízos e em breve certamente terei que me apresentar à delegacia para dar satisfações, já que o mordido, com toda razão, registrou uma queixa. O ocorrido só me fez ter certeza de minha tese: Freddy é mau. Dada essa conclusão, não me sobrou outra saída a não ser tomar uma atitude drástica. No dia seguinte encaminhei o criminoso à clínica e nesse exato momento ele usufrui de um belo colar em formato de cone para não lamber os pontos de sua cirurgia. Isso mesmo, nosso amigo perdeu seus testículos e, espero, a sanha por morder pessoas. E caso isso não seja um remédio, ao menos será minha vingancinha pessoal da noite em que ele nos fez de idiotas.

Por fim, não sei ainda se essa foi uma boa medida (quem já aplicou em seu animal poderia me contar nos comentários se houve mudança no comportamento), mas fi-lo porque temo sofrer represálias futuras e ter de me desfazer dele, e isso foi a única coisa que me ocorreu. Apesar de não admirar suas façanhas, e até já ter sido uma de suas vítimas, sei que meu amigão também é bem amoroso e não faz mais que seu ofício. Machado de Assis dizia que ofício de cão é latir e eu acrescento que o de morder também o é. Espero que daqui pra frente suas vítimas voltem a ser apenas os acolchoados que lhe servem de cama e os tapetes de minha casa ou ainda que ele aprenda a distinguir entre cidadãos de bem e invasores de quintal e possa desferir nestes sua ira canina.

domingo, 13 de outubro de 2013

Capítulo 7 - O que sobrou das reflexões


Frase: Eu tenho as mesmas sensações sobre as tardes de domingo. Liliane
Música: Sunday blood sunday, você também.

            Ainda hoje conversava sobre a capacidade que certos eventos de nosso cotidiano – tão prosaicos muitas vezes - têm de nos fazer lembrar algumas vivências. E não as sobremaneira marcantes, falo daquelas corriqueiras mesmo. Um cheiro que lembra uma viagem; uma brisa fria de um dia quente que traz à memória as férias infantis sobre o pé de goiaba, pensando que se está sobre o Everest e que se tem a humanidade a seu jugo; um sabor que te coloca de volta na cozinha da avó, subtraindo às escondidas o doce que estava guardado para a sobremesa; presenças que lembram funerais; paisagens que resgatam acasos... subjetivismos de toda a sorte. O que não se pode negar é que recordações dos primeiros anos são as mais saborosas.

             Aos oito ou dez anos você não está preocupado se o casamento dos seus pais não vai bem e se esteve algum dia; nem se o prognóstico dos especialistas em humanidade diz que ela vai de mal a pior. Aos quatorze, quinze ou dezoito também não, e sabem-se lá quantas e quais potenciais possibilidades do mundo devem manifestar-se ao mesmo tempo para despertar no ente o senso de responsabilidade, essa doença degenerativa da esperança.

            Um dia eu vi um homem desesperado, sumira-lhe a carteira. Às favas, acho que o roubaram. Não tinha muito dinheiro, segundo ele, uns duzentos e poucos contos, mas os documentos, o duro é os documentos, que trabalho ia dar pra tirar. Se pelo menos devolvessem os documentos. Sua ira era tanta que nem quis jantar naquele dia. Um pouco mais tarde assistiu da sua varanda à cena do filho da vizinha aos berros, o skate tava partido e a mãe não ia dar outro até o Natal, as coisas não estavam boas em casa e ele tava pensando que ela era milionária? Continuou assistindo à tragédia do garoto e à cachoeira de lágrimas que escorria em seu rosto. Mas criança é idiota mesmo.

            Estímulo que provoca rememorações são as tardes de domingo. Eu duvido muito que o apocalipse será capaz de produzir nas pessoas um exame de consciência semelhante ao dessas horas. E, que eu me lembre, sempre foi assim.  Até os dois anos eu nunca punha os pés descalços no chão. Minha mãe se lembra muito bem, os pés branquinhos, branquinhos, você nunca tirava aqueles sapatinhos pretos que ganhou de aniversário; a gente morava no sítio e depois que começou brincar com os moleques, começou usar chinelo, daí, bem, todo fim de semana você perdia um par.


            O meu pai era um homem muito severo e nunca hesitou em se valer de suas estratégias corretivas. Não admitia que houvesse desperdício das coisas em casa. Pode-se dizer que, dada as condições da época, essas perdas eram tidas por ele como coisa gravíssima, assim aplicava a pena do mesmo modo.  Aos dois anos, assim como todos os anos até eu parar de brincar com os moleques, eu estava pouco me lixando para os chinelos no início do fim de semana. No entanto, não sei dizer quanto tempo depois, na medida em que o sol do domingo ia baixando, despontava um certo desespero velado, que invadia minha alma e que não parou junto com as brincadeiras...   

sábado, 26 de maio de 2012

Capítulo 6 - Das memórias recentes. Parte 1

02/08/2010, 3:28 da madrugada - coincidentemente o mesmo horário que mostra agora o relógio do desktop windowsseteano -  eu pingava a última exclamação nesse meu recanto. E por que o silêncio de lá pra cá? Não sei. Vontade de escrever, de redigir algo? 100³! Não menos de quatorze vezes pensei em pegar à (se o Machado pode, por que eu não?) pena, por vezes da galhofa, por vezes da pura e sincera expressão ou, ainda, e por que não, da galhofa misturada com a necessidade de expressão.

            Penso que o que me tolhe é um sentimento de vontade de perfeição (muito longe de ser atingido, admito), de modo que eu acredite que as ideias que me dão na teia, esporadicamente, pouco ou nada contribuiriam nesse sentido (diria um segundoanista de sociais, fazendo perguntas em uma palestra) e as deixo a deriva, até que desapareçam no horizonte do rio das memórias. E dá-lhe um “putaquepariu, por que não as registrei”? Enfim...

            Quase dois anos depois da última postagem e muita, mas muita coisa aconteceu, neste ínterim. Por onde começar? Vejamos...
Em Agosto de 2010 eu estava a quatro meses de ter o canudo em mãos. Quando me dei conta disso, lembrei-me que, havia pouco, eu estava tomando trote dos veteranos. Pisquei e me via às voltas da colação de grau. Peraí, como assim? Meus amigos, cadê vocês? Santo Cristo, eu declinando substantivos (ainda nas aulinhas de inglês) no alemão e algumas pessoas casando-se, tendo filhos, viajando para o exterior e fazendo pós-graduação. Pronto, era o fim de uma era (o fim de uma era o fim de um era... ok, ok, eu paro) e eu estava 5 anos mais velho.

            Amigo leitor, o pós-faculdade dói... dói mais que a lembrança da formatura de terceiro colegial, já que, com muita sorte, você terá contato, doravante, apenas com uma meia dúzia de seus colegas, dói porque você é adulto agora e sua redoma quebrou... You are young and life is long and there is time to kill today/And then one day you find ten years have got behind you/No one told you when to run, you missed the starting gun”... dói e não se sente como a ferida de Camões… porra, isso é sobre o amor, deixa pra lá.

            Pois bem, chega dezembro e eu preciso encontrar um caminho na vida. Outro vestibular? Quem sabe se esconder embaixo das saias do ensino superior público por mais meia década não seja boa ideia? Então tá: “matrícula para o curso de Química em janeiro próximo”, lail no emeio - com o perdão do trocadalho. Caralho!, Química, jaleco, cientista...  na UFSCAR? to dentro! Um mês depois e o barato acabou... adeus exatas, você não é pra mim, decididamente. É claro que houve um fator muito importante e que residia na minha cidade natal, que pesou muito na desistência... mas este é outro assunto. Valeu a experiência e algumas poucas pessoas que conheci.

            De volta à minha terra, sem o Gugu, eu era uma nova pessoa, com fôlego, determinação e auto-motivação intensos... a causa disso? o mesmo assunto que ficou aí pra trás na história.
Início de 2011 também foi a festa de formatura da minha turma, porém, entre a matrícula da nova faculdade em janeiro e o dia do baile, algo, de que me lembrarei com muito carinho até o fim dos meus dias, (subordinada adjetiva, entendeu, 2º ano?) aconteceu: uma viagem para a praia com mais seis amigos er... queridíssimos, isso, queridíssimos, superlativando à moda José Dias.       Quatro deles, Suelen, Jacque, Flávia e Tiago, companheiros desde o primeiro dia letivo, daquele março de 2006. Karina (mamãe!!!) e Marília - não menos importantes - conheci no percurso.
            Maravilha, cinco ou seis dias na companhia dessas fantásticas pessoas e das paisagens litorâneas. Creiam-me, eu era semivirgem nesses assuntos de praia e esta ocasião foi a segunda vez que eu bebi água salgada. Tenho pra mim o mar como uma das coisas que realmente me faz ser grato pela vida (outras são o abraço de um amigo, o pôr do sol (sim, bem gay, e daí?) o bailar de uma mulher e algumas músicas do Pink Floyd).

            Há muita coisa ainda a se dizer, do meu cão que se foi a uma viagem ao exterior (Ah, Deutschland!), de um trabalho como professor a uma tese de onigamia na semana passada... e de mais um curso de alemão na Unesp, chegando atrasado... sem contar o tragicômico ocorrido nos festejos de fim de graduação.
Fica pra próxima, portanto. Estendi-me demais por hoje.

Se você está lendo isso, meu muito obrigado, mas vá ler um livro, ok? Ou os blogs Di Vasca e Juliete nunca mais que tenho acompanhado e recomendo.


Inté


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Capítulo 5 - Impostor: aquele que não posta

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É a última vez que trato desse assunto, creiam-me: Não sei porque caralhas hirtas e expectantes achei que conseguiria manter postagens frequentes e regulares tendo plena consciência de ter sido vítima de alguma quizumba braba da maldição do compromisso. Explico.

A coisa pode estar fluindo maravilhosamente bem, tudo funcionando 'à pampa', diria um amigo meu paulistano (aliás, que porra é essa hein? qual é a origem disso?) até que algum animal de teta - na maior parte das vezes, eu mesmo - decide formalizar a coisa, digo, colocar na rotina, programar, fazer planos, juras de amor, essas coisas assim e sobretudo, assumir um contrato com prazo de entrega. Pronto, fodeu.

Da última vez que postei, convencionei comigo mesmo que se não uma vez por mês, ao menos toda vez que houvesse o "serão literário" da FCL eu aproveitaria a oportunidade para escrever, comentando-o e aproveitando o ensejo para resmungar algumas baboseiras extras. Lá se foram 3 meses e 2 palestras e nada de postagens. Não que me faltasse vontade, ao contrário, quantas não foram às vezes que eu pensei, "poutz, isso dava um bom texto" e, em certos casos, até me remoí dias com aquilo na cabeça, coisa que me deixa angustiado e sem tato para o convívio.

No entanto, a pressão em manter o blog atualizado (principalmente quando recebo cobrança da minha legião de leitoras, Ka e Dai) me bloqueia de tal modo que concluo - só agora percebo - que a impressão de conspiração por parte do tempo que eu pensei haver quando tratei dos cursos de alemão é, na verdade, algo maior, é uma conspiração do universo todo, pra meu, sei lá, que eu tome no cu. Só isso explica essa minha incapacidade de levar uma proposição a termo.

Sim, porque não é fácil, meu companheiro, ser irresponsável a esse ponto. Cumprir com os compromissos é uma exigência básica para se sobreviver em sociedade. Recentemente fodi com a vida de um - se é que ele me considera ainda -  amigo, quando prometi-lhe entregar uma resenha para um trampo que ele havia pego. Nem preciso falar que chegou o dia e não havia nada preprado.

Uma prova de que não é apenas o tempo que está trabalhando na surdina pra me enrabar, mas sim todas as coisas existentes entre os céus e a terra e além deles, é que nessas férias haveria um novo curso do idioma do time que desclassificou a Argentina - em alemão: Argentinienverlirermanschaftmachersprache - e  para surpresa alguma minha, dos meus colegas e organizadores, eu entrei atrasado. Eu já sabia de antemão da data, eu estava de carro para não pegar chuva no caminho - como aconteceu de moto no início do ano -, eu preparei as malas na noite anterior e prometi dormir cedo pra acordar no horário e bem disposto e... a única coisa que poderia atrapalhar meus planos apareceu: uma mulher e uma cama quentes. Resultado, fuá até alta madrugada, sono irregular e fora de casa. Tá, dessa vez não reclamo muuuito, mas digam-me cá, há ou não há alguma urucubaca modorrenta sobre esse escriba aqui?

A mim funciona bastante aquelas espécies de acordos tácitos, assim esse órgão controlador geral dos destinos, OCGD doravante, (que só funciona mediante protocolos) não fica sabendo e não tenta sodomizar minha vida sem lubrificante. E não se fala mais disso. Chega. Agora fica assim, quando der eu escrevo, se não der não escrevo, quem quiser ler, leia, quem não quiser, não leia.

(À parte e baixo: Psiu, to falando isso pra enganá-lo e desviar sua atenção de mim, amo vocês e escreverei mais e sempre, prometo!)

OCGD: Ahá!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Capítulo 4 - Sacudindo a poeira e descobrindo neuroses

Bom, vamo lá, lembrei que tinha um blog e que por ser cria minha não merece menos atenção que um filho - se bem que se eu abandonasse por tanto tempo assim um incapaz já estaria amargando uma cana. Mas tudo bem, essa criatura aqui não chora nem reclama (tirando minha única e especial leitora assídua que cobra postagens. Valeu Ká, uma mãe completa, que além de zelar da minha higiene e alimentação, ainda verifica se estou fazendo certinho o dever de casa) e nem conta com um estatuto próprio que a defenda.

No começo dessa empreitada tudo eram flores e na empolgação do início cheguei a crer que postaria algo novo toda semana. Balela. Comecei no início de Janeiro - ano novo, vida nova, blog novo - prometendo não abandoná-lo como fiz com o judô, as caminhadas matinais, o Kung-fu, o estudo de filosofia, as aulas de bateria, teclado e percussão, a colheita feliz, o jiu-jitsu, as aulas de dança, a coleção de selos e o twitter, mas zás, 5 postagens depois e deixei um mês inteirinho para trás; março passou em branco e abril se salvou aos 45 do segundo tempo num gol chorado (E aí, Dai, aprendi bem a fazer metáforas futebolísticas?). Acho que da última vez que postei algo, ainda estava com o monitor velho... quero dizer, mais velho.

De lá pra cá nada de muito novo no front, com exceção de que as aulas voltaram e a maior parte dos meus colegas de sala se formou e deu linha na pipa. Quase toda a outra parte que sobrou não faz as mesmas disciplinas que eu, de modo que se não fosse o power trio, Alê, Jacque e Su, eu já teria se suicidado com um afogamento no espelho d'água, tamanho o tédio que ronda esse resto de faculdade.

E por falar em pessoas que picaram a mula, deitaram o cabelo, fizeram rastro, queimaram o chão,  vazaram na brachiaria, pegaram a reta e sumiram do mapa, depois do Johnny que foi pra Grécia (e veio ver os amigos há 1 mês) e da Estela que vazou pros States, a Larissa também fez as malas e caiu no mundo, foi parar na Alemanha. Pelo jeito, em pouco tempo, cativou a branquelada com a aquele quadril de brasileira e aqueles cabelos cacheados jeito caipirão de ser (sardade do cê amigona, fidumaégua que não responde no msn).

E caralho, agora comecei a lembrar de um monte de coisa que aconteceu desde a última vez. Ainda ontem queixava-me do marasmo que assola a vida ultimamente, entretanto, foi só dar uma remexida na gaveta da memória e algumas peças que estavam dobradinhas lá no fundo saltaram à tona. Mas deixa pra lá, fica pra próxima. Só que fui pra praia... prosaico, não fosse que foi minha primeira vez no mar e como eu já acreditava que era salgada, não!, não tive a estúpida vontade de experimentar aquela água chuja pra comprovar. Ceticismo tem limites. Ah, e tomei uma multa por excesso de velocidade. Mais pontos numa carteira e menos dinheiro na outra. Mas tudo bem, eu poderia ter sofrido um acidente.

Voltando pra faculdade, gostaria de registrar aqui o motivo que me tirou da inércia e me fez retomar essa porra os escritos. Desde a semana passada eu já estava sabendo de um serão literário com um tal escritor Nelson de Oliveira que haveria hoje no anfiteatro B. Nunca havia lido o cara mais gordo, tampouco ouvido falar sobre, mas farto da teoria das salas de aula decidi que iria, pra curtir um pouco a literatura em vez de apenas ficar abrindo-lhe a barriga pra fuçar nos orgãos.

Cheguei atrasado, porém a tempo de ouvir ao escritor bastantes cousas interessantes, sobretudo sua opinião sobre o futuro do mercado editorial (além de escrever ele também trabalha numa editora) e do livro enquanto esse objeto tradicional, a literatura que não é altamente vendável e sua geração de escritores, conhecida como geração 90. Já os contos selecionados para a ocasião não me agradaram sobremaneira, pois não havia ali qualquer coisa nova no que toca a experimentação. O que me agrada ver em escritores novos é a capacidade de fazer bem o velho, se bem que até a experimentação tá velha, falo do velho tradicionalzão mesmo.

Mas o mais interessante foi que descobri ter uma neurose sem precisar pagar o psicanalista. Explico. A neurose era dele, contudo, quando ele a expôs, eu bem que quis interrompê-lo cobrando meus direitos de autor, porque aquela idéia - que em explicação ulterior, descobri ser uma neurose - tenho certeza que era minha. Consiste no seguinte, para ele o mundo é um enorme teatro e as pessoas vivem fingindo as relações sociais o tempo todo, assumindo obstinadamente seus personagens, pois só isso explicaria a não resolução de problemas (dentre eles uma guerra, por exemplo) facilmente resolvidos por qualquer aprendiz de lógica. Pois bem, eu que há certo tempo refletia nisso, já me havia adiantado em algum ponto: tal resolução só não se dá porque estamos lidando com seres humanos e não com animais racionais. E tenho dito.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Capitulo 3 - O Orador de boteco


 Frase: "Por que as pessoa têm essa ridícula mania de conversar umas com as outras? Não serve pra nada mesmo." Flavio M.. (Tá, é a última vez que escrevo esse nome por aqui)
Música: Keep talking - Pink Floyd


Gostaria de chamar atenção aqui para um tipo cada vez mais comum nessa nossa sociedade atual, tão ávida por comunicação que nunca vi em nenhuma das minhas outras vidas : O orador de boteco. Faço, antes, um adendo. Sempre preferi manter-me calado a falar besteira, contudo, como nesses tempos quem não se comunica se trumbica, mudei muito minha postura ultimamente, de modo que talvez  caia no meu próprio ardil. Espero que não.
  
Continuando, apesar de eu ter colocado o bar como habitat natural desses indivíduos, é possível encontrar espécimes em qualquer círculo social. São conhecidos basicamente pela habilidade pentelhice com que tomam a palavra. É sair um assunto qualquer na roda e pronto, o sujeito segura o microfone e desembesta a falar tal qual um pastor que cheirou cocaína. E entendem de tudo os desgramados, de castração de grilo a atracação de navio, de plantação de rabanetes nas ilhas Seychelles a reforma tributária. É de dar inveja. 

É claro que não se limitam a apenas expor a teoria. A maioria também já vivenciou a situação em questão e de um modo ou de outro, saiu por cima, pois é claro, a idéia por trás de toda essa patacoada é a auto-afirmação. Em sendo homem, caso alguma lady esteja presente, dá até pra se entender - se bem que deve dar no saco até das mais tolerantes -  mas, de outra forma, ah! vá se auto-afirmar pra lá do pasto, vai!

Veja bem, não falo aqui de conversas bem-humoradas, nas quais inevitavelmente alguns indivíduos mais familiarizados com o discurso conduzem agradavelmente a tertúlia, distribuindo vez por outra, de forma igualitária, a posse da palavra. Não! Falo daqueles, e por que não, daquelas zé-ruelas que insistem a todo custo em dar seu pitaco em todo e qualquer assunto, com toda sorte de asneira que sua mente puder excretar, só pra ganhar um pouco de atenção deixar o ambiente cada vez mais entediante.

Mas como já coloquei, seu (o dele) ambiente preferido é o bar. Aí não tem pra ninguém, sobretudo porque a tensão nesses lugares é menor e o teor alcólico maior. O interlocutor pode tentar o que for entre uma pausa para a respiração ou uma molhada de bico no copo de cerveja, porém é introduzir (ui!) o discurso (ah!) e lá vem o Sócrates de botequim atropelando a sentença para dar sua opinião infindável, ou, quando não, para encerrar o assunto em pauta e retornar a epopéia heróica ( é pleonasmo isso, né?) de sua vida. 

Ah sim, como não, adoram falar de si próprios! A história de suas vidas renderia uma daquelas produções hollywoodianas cheias de explosões, aventuras e muita confusão, cujo protagonista seria o Zé Mayer (já que entre uma fuga e outra sempre há tempo pra dar umazinha com uma transeunte ao acaso) no caso de um gajo. Com raparigas a coisa gira em torno do vestuário, dos acessórios e das traquinices conjugais das "amigas".

Como não bastasse ter atentado contra a paciência de todos da mesa com suas bravas peregrinações ao reino da felicidade, se só sobrou homem no recinto, prepare-se, meu companheiro, para a inevitável demonstração de pinto. Nesse caso o pior não é escutar que o caralho de ferro do cidadão trabalhou initeruptamente por três horas a fio, oiq?. O pior ainda esta por vir.

Como a lei natural do orgulho masculino não permite que qualquer outro homem além de você próprio possa ter a ferramenta em riste medindo e operando mais do que qualquer outra, tem-se início uma batalha oratória das mais refinadas na qual cada presente vai se sobrepor ao outro com uma performance sexual que faria qualquer ator pornô pedir demissão. Todos da mesa têm o que dizer. Até aquele um que permanecia lacônico ali no cantinho, desperta como que por encanto, seu olhar ganha um brilho renovado e ele entra também na dança da medição. E haja criatividade... principalmente em época de carnaval com a promiscuidade tão alta...

Bjosmesacaneiem

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Capítulo 2 - Sensações


Frase: "De vez em quando eu até tenho sentimentos, mas só se não tiver ninguém olhando" Flavio M.
Música: Bayern, des samma mia - Rammstein (??)

Vamo lá., primeira postagem de cara nova. Agradecimentos ao B.ruder que me passou o site com os templates. O phoda foi que tinha tanta opção, mas tanta opção que no fim já estava confuso. Pô, sacanagem, ainda mais comigo... indeciiiiso que só. Padeço do mal do asno de Buridan. Bem, mas chega de metablogagem.

Tarde do último domingo. As tardes de domingo são conhecidas por serem, de modo geral, o período mais depressivo da semana. Essa última tinha tudo pra não ser diferente. Já até estava esborrachado no sofá e prestes a injetar mais uma dose ver o Faustão, quando decidi olhar pela janela. Com um esforço sobre-humano levantei um pouco a cabeça da almofada e para minha surpresa essa tarde estava fantástica. Aquele sol escaldante que me faz derreter litors!111!! nos dias comuns havia se escondido em uma nuvem qualquer aí no horizonte e dava início ao seu espetáculo diário do ocaso; nenhum sinal de chuva em qualquer direção que a vista alcançasse e uma claridade estupenda esparramava-se pelas ruas meio silenciosas.

Assim, tomei um pouco de coragem e resolvi ir até a varanda a fim de aproveitar melhor o momento. Nesse ínterim, meu fila brasileiro que não é bobo nem nada, mas é carente como uma criança de colo, percebeu a movimentação e veio até mim com aqueles  olhos caídos e um semblante tão melancólico,  que perto dele o bisonho pareceria um ursinho carinhoso. Seu olhar, que muitas vezes expressa mais que 100 páginas de muito nego por aí, clamava por um passeio pelas redondezas. Pensei, refleti, ponderei e obtemperei: por que não?

Coleira colocada e mãos a obra. Digo mãos a obra porque ele dá um trabalho danado. É incrível como o humor dele muda nesses momentos. O paquiderme de cerca de 80 kilos torna-se um pinscher zero e fica pulando e vibrando descontroladamente. Haja braço pra segurar a criatura. Sua curiosidade pelo mundo exterior aos muros é a mesma de uma criança posta num ambiente novo. Tudo ele quer cheirar (quase dei-lhe o nome de Maradona por isso) tudo quer sentir, tudo quer tocar, se pudesse aposto que me perguntaria - Mas por que isso...? por que aquilo...?

Bem, foi entre uma farejada e outra, entre um levantar de orelhas e alguns segundos de atenção que me dei conta de como somos dependentes de nossos sentidos. Na ocasião também fazia algo de que não faço costumeiramente, vestia meus óculos de grau em público. Eu que sempre achei que 1 grau de miopia não fazia diferença, fiquei deslumbrado com o que via (!). Aquela sensação de tarde fantástica que havia notado minutos antes, era otimizada através do vidro das minhas lentes côncavas. Foi aí também que conjeturei: E se, ao invés de vários sentidos medianos, tivéssemos, sei lá, um olfato tão aguçado como o de um cão, por exemplo? Nesse caso poderíamos saber o cardápio do almoço a um quarteirão de distância? Ou, ainda, descobrir quem foi o maldito que soltou aquele pum com a sala lotada? De que seríamos capazes se ao nosso tele-encéfalo altamente desenvolvido e aos nossos polegares opositores tivéssemos, associado, um sentido extraordinário? Poderíamos ouvir conversas alheias ou uma agulha caindo do outro lado da parede, sem aqueles aparelhos que a polishop ofertava na década de 90?

Mas não vem ao caso. O fato é que nossos sentidos são insuficiente para os infinitos estímulos que devem existir por esse mundão a fora. Contudo, e por sorte, nós, o zumanos, além dos sentidos convencionais, somos agraciados com um outro sentir. O sentir do coração. Não se trata de um sentido muito preciso, é vero, e não que os animais não o tenham - ao contrário, têm até mais que certos párias de nosso convívio - mas é que nós temos a língua e eles não. Daí também esse sentimento de imprecisão das cousas do coração, ou vai dizer que ela, a língua, dá conta todavida de expressar certinho aquilo tudo que vai se enfiando sem permissão mesmo - afinal é o único sentido que não conseguimos controlar - por debaixo das costelas?

E não falo só de afetividade, não. Quantas vezes já não previmos certas situações mesmo a grandes distâncias? Quantas vezes não notamos certas disposições de espírito sem mesmo ter ouvido uma só palavra do cidadão? Em quantos ambientes já não botamos o pé e sentimos um calor aconchegante ou um arrepio de dar vontade de voltar imediatamente? Acho que todos já passamos por isso na vida. Intuição? Sei lá... eu prefiro creditar isso ao sentido do coração. Enfim, chovi no molhado e sei que isso não é nenhuma novidade, porém (lá vem mais uma adversativa) em meio a essa sanha por sistematização por parte da ciência, ainda é o polo do sentir o responsável por captar o que há de mais verdadeiro nisso que chamamos realidade.

E pra arrematar vai isso aí:


alma acerTA alguém

 Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
                                                                                                                 Florbela Espanca


Merecias as quadrinhas mais inocentes
De um amor cortês vindo de outrora
Um ideal a se buscar longe, lá fora
Com olhar e alma transparentes

Um modelo de deusa inatingível
Que poetas cantariam pelo universo
E a ti dedicariam não apenas o verso
Mas uma servidão incognoscível

És, no entanto, muito humana
E em sua essência, as damaged as me.
Da deusa que passei a ver em ti
Amor e ódio conjugados emanam

Não quero a perfeição utópica,
A viver esgueirando-me da vida.
Quero, antes, toda a dimensão trágica
Perante o paraíso, a alma dividida.


Nota  4: Sem nota hoje. Obrigado