segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Capitulo 3 - O Orador de boteco


 Frase: "Por que as pessoa têm essa ridícula mania de conversar umas com as outras? Não serve pra nada mesmo." Flavio M.. (Tá, é a última vez que escrevo esse nome por aqui)
Música: Keep talking - Pink Floyd


Gostaria de chamar atenção aqui para um tipo cada vez mais comum nessa nossa sociedade atual, tão ávida por comunicação que nunca vi em nenhuma das minhas outras vidas : O orador de boteco. Faço, antes, um adendo. Sempre preferi manter-me calado a falar besteira, contudo, como nesses tempos quem não se comunica se trumbica, mudei muito minha postura ultimamente, de modo que talvez  caia no meu próprio ardil. Espero que não.
  
Continuando, apesar de eu ter colocado o bar como habitat natural desses indivíduos, é possível encontrar espécimes em qualquer círculo social. São conhecidos basicamente pela habilidade pentelhice com que tomam a palavra. É sair um assunto qualquer na roda e pronto, o sujeito segura o microfone e desembesta a falar tal qual um pastor que cheirou cocaína. E entendem de tudo os desgramados, de castração de grilo a atracação de navio, de plantação de rabanetes nas ilhas Seychelles a reforma tributária. É de dar inveja. 

É claro que não se limitam a apenas expor a teoria. A maioria também já vivenciou a situação em questão e de um modo ou de outro, saiu por cima, pois é claro, a idéia por trás de toda essa patacoada é a auto-afirmação. Em sendo homem, caso alguma lady esteja presente, dá até pra se entender - se bem que deve dar no saco até das mais tolerantes -  mas, de outra forma, ah! vá se auto-afirmar pra lá do pasto, vai!

Veja bem, não falo aqui de conversas bem-humoradas, nas quais inevitavelmente alguns indivíduos mais familiarizados com o discurso conduzem agradavelmente a tertúlia, distribuindo vez por outra, de forma igualitária, a posse da palavra. Não! Falo daqueles, e por que não, daquelas zé-ruelas que insistem a todo custo em dar seu pitaco em todo e qualquer assunto, com toda sorte de asneira que sua mente puder excretar, só pra ganhar um pouco de atenção deixar o ambiente cada vez mais entediante.

Mas como já coloquei, seu (o dele) ambiente preferido é o bar. Aí não tem pra ninguém, sobretudo porque a tensão nesses lugares é menor e o teor alcólico maior. O interlocutor pode tentar o que for entre uma pausa para a respiração ou uma molhada de bico no copo de cerveja, porém é introduzir (ui!) o discurso (ah!) e lá vem o Sócrates de botequim atropelando a sentença para dar sua opinião infindável, ou, quando não, para encerrar o assunto em pauta e retornar a epopéia heróica ( é pleonasmo isso, né?) de sua vida. 

Ah sim, como não, adoram falar de si próprios! A história de suas vidas renderia uma daquelas produções hollywoodianas cheias de explosões, aventuras e muita confusão, cujo protagonista seria o Zé Mayer (já que entre uma fuga e outra sempre há tempo pra dar umazinha com uma transeunte ao acaso) no caso de um gajo. Com raparigas a coisa gira em torno do vestuário, dos acessórios e das traquinices conjugais das "amigas".

Como não bastasse ter atentado contra a paciência de todos da mesa com suas bravas peregrinações ao reino da felicidade, se só sobrou homem no recinto, prepare-se, meu companheiro, para a inevitável demonstração de pinto. Nesse caso o pior não é escutar que o caralho de ferro do cidadão trabalhou initeruptamente por três horas a fio, oiq?. O pior ainda esta por vir.

Como a lei natural do orgulho masculino não permite que qualquer outro homem além de você próprio possa ter a ferramenta em riste medindo e operando mais do que qualquer outra, tem-se início uma batalha oratória das mais refinadas na qual cada presente vai se sobrepor ao outro com uma performance sexual que faria qualquer ator pornô pedir demissão. Todos da mesa têm o que dizer. Até aquele um que permanecia lacônico ali no cantinho, desperta como que por encanto, seu olhar ganha um brilho renovado e ele entra também na dança da medição. E haja criatividade... principalmente em época de carnaval com a promiscuidade tão alta...

Bjosmesacaneiem

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Capítulo 2 - Sensações


Frase: "De vez em quando eu até tenho sentimentos, mas só se não tiver ninguém olhando" Flavio M.
Música: Bayern, des samma mia - Rammstein (??)

Vamo lá., primeira postagem de cara nova. Agradecimentos ao B.ruder que me passou o site com os templates. O phoda foi que tinha tanta opção, mas tanta opção que no fim já estava confuso. Pô, sacanagem, ainda mais comigo... indeciiiiso que só. Padeço do mal do asno de Buridan. Bem, mas chega de metablogagem.

Tarde do último domingo. As tardes de domingo são conhecidas por serem, de modo geral, o período mais depressivo da semana. Essa última tinha tudo pra não ser diferente. Já até estava esborrachado no sofá e prestes a injetar mais uma dose ver o Faustão, quando decidi olhar pela janela. Com um esforço sobre-humano levantei um pouco a cabeça da almofada e para minha surpresa essa tarde estava fantástica. Aquele sol escaldante que me faz derreter litors!111!! nos dias comuns havia se escondido em uma nuvem qualquer aí no horizonte e dava início ao seu espetáculo diário do ocaso; nenhum sinal de chuva em qualquer direção que a vista alcançasse e uma claridade estupenda esparramava-se pelas ruas meio silenciosas.

Assim, tomei um pouco de coragem e resolvi ir até a varanda a fim de aproveitar melhor o momento. Nesse ínterim, meu fila brasileiro que não é bobo nem nada, mas é carente como uma criança de colo, percebeu a movimentação e veio até mim com aqueles  olhos caídos e um semblante tão melancólico,  que perto dele o bisonho pareceria um ursinho carinhoso. Seu olhar, que muitas vezes expressa mais que 100 páginas de muito nego por aí, clamava por um passeio pelas redondezas. Pensei, refleti, ponderei e obtemperei: por que não?

Coleira colocada e mãos a obra. Digo mãos a obra porque ele dá um trabalho danado. É incrível como o humor dele muda nesses momentos. O paquiderme de cerca de 80 kilos torna-se um pinscher zero e fica pulando e vibrando descontroladamente. Haja braço pra segurar a criatura. Sua curiosidade pelo mundo exterior aos muros é a mesma de uma criança posta num ambiente novo. Tudo ele quer cheirar (quase dei-lhe o nome de Maradona por isso) tudo quer sentir, tudo quer tocar, se pudesse aposto que me perguntaria - Mas por que isso...? por que aquilo...?

Bem, foi entre uma farejada e outra, entre um levantar de orelhas e alguns segundos de atenção que me dei conta de como somos dependentes de nossos sentidos. Na ocasião também fazia algo de que não faço costumeiramente, vestia meus óculos de grau em público. Eu que sempre achei que 1 grau de miopia não fazia diferença, fiquei deslumbrado com o que via (!). Aquela sensação de tarde fantástica que havia notado minutos antes, era otimizada através do vidro das minhas lentes côncavas. Foi aí também que conjeturei: E se, ao invés de vários sentidos medianos, tivéssemos, sei lá, um olfato tão aguçado como o de um cão, por exemplo? Nesse caso poderíamos saber o cardápio do almoço a um quarteirão de distância? Ou, ainda, descobrir quem foi o maldito que soltou aquele pum com a sala lotada? De que seríamos capazes se ao nosso tele-encéfalo altamente desenvolvido e aos nossos polegares opositores tivéssemos, associado, um sentido extraordinário? Poderíamos ouvir conversas alheias ou uma agulha caindo do outro lado da parede, sem aqueles aparelhos que a polishop ofertava na década de 90?

Mas não vem ao caso. O fato é que nossos sentidos são insuficiente para os infinitos estímulos que devem existir por esse mundão a fora. Contudo, e por sorte, nós, o zumanos, além dos sentidos convencionais, somos agraciados com um outro sentir. O sentir do coração. Não se trata de um sentido muito preciso, é vero, e não que os animais não o tenham - ao contrário, têm até mais que certos párias de nosso convívio - mas é que nós temos a língua e eles não. Daí também esse sentimento de imprecisão das cousas do coração, ou vai dizer que ela, a língua, dá conta todavida de expressar certinho aquilo tudo que vai se enfiando sem permissão mesmo - afinal é o único sentido que não conseguimos controlar - por debaixo das costelas?

E não falo só de afetividade, não. Quantas vezes já não previmos certas situações mesmo a grandes distâncias? Quantas vezes não notamos certas disposições de espírito sem mesmo ter ouvido uma só palavra do cidadão? Em quantos ambientes já não botamos o pé e sentimos um calor aconchegante ou um arrepio de dar vontade de voltar imediatamente? Acho que todos já passamos por isso na vida. Intuição? Sei lá... eu prefiro creditar isso ao sentido do coração. Enfim, chovi no molhado e sei que isso não é nenhuma novidade, porém (lá vem mais uma adversativa) em meio a essa sanha por sistematização por parte da ciência, ainda é o polo do sentir o responsável por captar o que há de mais verdadeiro nisso que chamamos realidade.

E pra arrematar vai isso aí:


alma acerTA alguém

 Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
                                                                                                                 Florbela Espanca


Merecias as quadrinhas mais inocentes
De um amor cortês vindo de outrora
Um ideal a se buscar longe, lá fora
Com olhar e alma transparentes

Um modelo de deusa inatingível
Que poetas cantariam pelo universo
E a ti dedicariam não apenas o verso
Mas uma servidão incognoscível

És, no entanto, muito humana
E em sua essência, as damaged as me.
Da deusa que passei a ver em ti
Amor e ódio conjugados emanam

Não quero a perfeição utópica,
A viver esgueirando-me da vida.
Quero, antes, toda a dimensão trágica
Perante o paraíso, a alma dividida.


Nota  4: Sem nota hoje. Obrigado