quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Capítulo 2 - Sensações


Frase: "De vez em quando eu até tenho sentimentos, mas só se não tiver ninguém olhando" Flavio M.
Música: Bayern, des samma mia - Rammstein (??)

Vamo lá., primeira postagem de cara nova. Agradecimentos ao B.ruder que me passou o site com os templates. O phoda foi que tinha tanta opção, mas tanta opção que no fim já estava confuso. Pô, sacanagem, ainda mais comigo... indeciiiiso que só. Padeço do mal do asno de Buridan. Bem, mas chega de metablogagem.

Tarde do último domingo. As tardes de domingo são conhecidas por serem, de modo geral, o período mais depressivo da semana. Essa última tinha tudo pra não ser diferente. Já até estava esborrachado no sofá e prestes a injetar mais uma dose ver o Faustão, quando decidi olhar pela janela. Com um esforço sobre-humano levantei um pouco a cabeça da almofada e para minha surpresa essa tarde estava fantástica. Aquele sol escaldante que me faz derreter litors!111!! nos dias comuns havia se escondido em uma nuvem qualquer aí no horizonte e dava início ao seu espetáculo diário do ocaso; nenhum sinal de chuva em qualquer direção que a vista alcançasse e uma claridade estupenda esparramava-se pelas ruas meio silenciosas.

Assim, tomei um pouco de coragem e resolvi ir até a varanda a fim de aproveitar melhor o momento. Nesse ínterim, meu fila brasileiro que não é bobo nem nada, mas é carente como uma criança de colo, percebeu a movimentação e veio até mim com aqueles  olhos caídos e um semblante tão melancólico,  que perto dele o bisonho pareceria um ursinho carinhoso. Seu olhar, que muitas vezes expressa mais que 100 páginas de muito nego por aí, clamava por um passeio pelas redondezas. Pensei, refleti, ponderei e obtemperei: por que não?

Coleira colocada e mãos a obra. Digo mãos a obra porque ele dá um trabalho danado. É incrível como o humor dele muda nesses momentos. O paquiderme de cerca de 80 kilos torna-se um pinscher zero e fica pulando e vibrando descontroladamente. Haja braço pra segurar a criatura. Sua curiosidade pelo mundo exterior aos muros é a mesma de uma criança posta num ambiente novo. Tudo ele quer cheirar (quase dei-lhe o nome de Maradona por isso) tudo quer sentir, tudo quer tocar, se pudesse aposto que me perguntaria - Mas por que isso...? por que aquilo...?

Bem, foi entre uma farejada e outra, entre um levantar de orelhas e alguns segundos de atenção que me dei conta de como somos dependentes de nossos sentidos. Na ocasião também fazia algo de que não faço costumeiramente, vestia meus óculos de grau em público. Eu que sempre achei que 1 grau de miopia não fazia diferença, fiquei deslumbrado com o que via (!). Aquela sensação de tarde fantástica que havia notado minutos antes, era otimizada através do vidro das minhas lentes côncavas. Foi aí também que conjeturei: E se, ao invés de vários sentidos medianos, tivéssemos, sei lá, um olfato tão aguçado como o de um cão, por exemplo? Nesse caso poderíamos saber o cardápio do almoço a um quarteirão de distância? Ou, ainda, descobrir quem foi o maldito que soltou aquele pum com a sala lotada? De que seríamos capazes se ao nosso tele-encéfalo altamente desenvolvido e aos nossos polegares opositores tivéssemos, associado, um sentido extraordinário? Poderíamos ouvir conversas alheias ou uma agulha caindo do outro lado da parede, sem aqueles aparelhos que a polishop ofertava na década de 90?

Mas não vem ao caso. O fato é que nossos sentidos são insuficiente para os infinitos estímulos que devem existir por esse mundão a fora. Contudo, e por sorte, nós, o zumanos, além dos sentidos convencionais, somos agraciados com um outro sentir. O sentir do coração. Não se trata de um sentido muito preciso, é vero, e não que os animais não o tenham - ao contrário, têm até mais que certos párias de nosso convívio - mas é que nós temos a língua e eles não. Daí também esse sentimento de imprecisão das cousas do coração, ou vai dizer que ela, a língua, dá conta todavida de expressar certinho aquilo tudo que vai se enfiando sem permissão mesmo - afinal é o único sentido que não conseguimos controlar - por debaixo das costelas?

E não falo só de afetividade, não. Quantas vezes já não previmos certas situações mesmo a grandes distâncias? Quantas vezes não notamos certas disposições de espírito sem mesmo ter ouvido uma só palavra do cidadão? Em quantos ambientes já não botamos o pé e sentimos um calor aconchegante ou um arrepio de dar vontade de voltar imediatamente? Acho que todos já passamos por isso na vida. Intuição? Sei lá... eu prefiro creditar isso ao sentido do coração. Enfim, chovi no molhado e sei que isso não é nenhuma novidade, porém (lá vem mais uma adversativa) em meio a essa sanha por sistematização por parte da ciência, ainda é o polo do sentir o responsável por captar o que há de mais verdadeiro nisso que chamamos realidade.

E pra arrematar vai isso aí:


alma acerTA alguém

 Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
                                                                                                                 Florbela Espanca


Merecias as quadrinhas mais inocentes
De um amor cortês vindo de outrora
Um ideal a se buscar longe, lá fora
Com olhar e alma transparentes

Um modelo de deusa inatingível
Que poetas cantariam pelo universo
E a ti dedicariam não apenas o verso
Mas uma servidão incognoscível

És, no entanto, muito humana
E em sua essência, as damaged as me.
Da deusa que passei a ver em ti
Amor e ódio conjugados emanam

Não quero a perfeição utópica,
A viver esgueirando-me da vida.
Quero, antes, toda a dimensão trágica
Perante o paraíso, a alma dividida.


Nota  4: Sem nota hoje. Obrigado

5 comentários:

  1. Guh...vc esqueceu de citar o momento em que nosso lindo fila brasileiro defecou na rua.
    Ah!Mas pra que né...acabar com o sentimentalismo?
    Não!rsrs. Até porque, ainda bem q nossos sentidos, nem são tão aguçados assim, ja imagino nosso olfato nesse instante?!

    Lucia tatinha

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  2. É lindo seu fila hein. Fiquei com saudade da minha cachorra =/.
    Gostei muito do seu texto de hoje. Esse negócio de sentir pra mim é muito importante. Hoje mesmo estava conversando com umas amigas sobre as sensações que algumas músicas nos dão... É muito bacana isso!
    Como não estou muito inspirada pra comentar hoje, fico por aqui.
    Até breve! =*

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  3. Sobre o cão, Ká, até é bonito sim, mas eu preferia um Pastor Alemão. Daí dava pra eu treinar meu Deutsch... e de quebra estudar a bíblia. Não tem muita graça conversar com um que só fala português caipira...

    Ah! Música!! Como não! Música é... er música para meus ouvidos!

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  4. TAVINHO...AQUELA PARTE DO DOG CARENTE...UHHHH....TODAS AS VEZES QUE ESTIVE NA SUA CASA NÃO CONSEGUI PERCEBER ESTE OLHAR, MUITO PELO CONTRÁRIO...EM RELAÇÃO AOS ÓCULOS COMO OS SERES RACIONAIS DEIXAM A DESEJAR NESTA FUNÇÃO... IMAGINA ALGUÉM LA NUM PASSADO REMOTO TEVE A BELA PERCEPÇÃO DE QUE O MUNDO ESTAVA DESBOTANDO, COMO NUM PASSE DE MÁGICA CRIA OS ÓCULOS, AHHH ESQUECE TODA AQUELA TEORIA DA OPTICA DA FÍSICA, ISTO FOI SÓ PARA DEIXAR OS ÓCULOS MAIS IMPORTANTES...ENFIM APENAS POR UMA QUESTÃO DE ESTÉTICA, PREFERIMOS DEIXAR OS ÓCULOS GUARDADINHOS E USARMOS APENAS EM AMBIENTES RESTRITOS, APERTANDO BASTANTE OS OLHOS (NO CASO DO MÍOPES) PARA VER LA LONGE (30 CM), SEM SE DAR CONTA DA QUANTIDADE DE RUGAS QUE ESTE MOVIMENTO ESTÁ CAUSANDO...AGORA PERGUNTO CADE A RACIONALIDADE DO SER... NÃO SERIA MAIS FÁCIL USAR OS ÓCULOS, POIS TODAS AS VEZES QUE OS COLOCAMOS O MUNDO FICA MAIS COLORIDO E AQUELE PONTO QUE ESTAVA TÃO LONGE, QUE ERA APENAS UM BORRÃO SE TORNA UMA FIGURA COMPLETA A MEIO METRO DE DISTÂNCIA DA GENTE? EU SÓ COMECEI A PERCEBER TAMANHA A IMBECILIDADE DE NÃO USAR OS ÓCULOS QUANDO COMECEI A VER UNS RISQUINHOS NO MEU ROSTO AO LADO DOS OLHOS, COSMETICAMENTE FALANDO "LINHAS DE EXPRESSÃO", E AO VER O PREÇO DOS RENEW E DOS CHRONOS E TAMBÉM COMPREI UM PAR DE LENTE...OLHA QUE SIMPLES E FÁCIL...HEHEHE...
    AHH....SÓ PARA FINALIZAR, A KETTY DEMONSTRA AS VEZES AQUELAS SENSAÇÕES QUE ELA SENTIA QUNADO VOCÊ DORMIA LA EM CASA COM ELA...BJS

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  5. Ah, Nádia vc não imagina do que ele é capaz pra conseguir um pouco de atenção! Sobre a Ketty, aposto que ela já me esqueceu, aquela cadela!!! Deve estar dando moral pra algum Pit Bull aí do pedaço...

    E dos óculos, não que eu prefira não usá-los por questões estéticas - ao contrário, acho até que fico menos feio com eles - é mais por questão de comodidade mesmo, já que sou tão desligado que o perderia ou o quebraria facinho facinho!!

    Obrigado pelo comentário, grande beijo!

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