domingo, 13 de outubro de 2013

Capítulo 7 - O que sobrou das reflexões


Frase: Eu tenho as mesmas sensações sobre as tardes de domingo. Liliane
Música: Sunday blood sunday, você também.

            Ainda hoje conversava sobre a capacidade que certos eventos de nosso cotidiano – tão prosaicos muitas vezes - têm de nos fazer lembrar algumas vivências. E não as sobremaneira marcantes, falo daquelas corriqueiras mesmo. Um cheiro que lembra uma viagem; uma brisa fria de um dia quente que traz à memória as férias infantis sobre o pé de goiaba, pensando que se está sobre o Everest e que se tem a humanidade a seu jugo; um sabor que te coloca de volta na cozinha da avó, subtraindo às escondidas o doce que estava guardado para a sobremesa; presenças que lembram funerais; paisagens que resgatam acasos... subjetivismos de toda a sorte. O que não se pode negar é que recordações dos primeiros anos são as mais saborosas.

             Aos oito ou dez anos você não está preocupado se o casamento dos seus pais não vai bem e se esteve algum dia; nem se o prognóstico dos especialistas em humanidade diz que ela vai de mal a pior. Aos quatorze, quinze ou dezoito também não, e sabem-se lá quantas e quais potenciais possibilidades do mundo devem manifestar-se ao mesmo tempo para despertar no ente o senso de responsabilidade, essa doença degenerativa da esperança.

            Um dia eu vi um homem desesperado, sumira-lhe a carteira. Às favas, acho que o roubaram. Não tinha muito dinheiro, segundo ele, uns duzentos e poucos contos, mas os documentos, o duro é os documentos, que trabalho ia dar pra tirar. Se pelo menos devolvessem os documentos. Sua ira era tanta que nem quis jantar naquele dia. Um pouco mais tarde assistiu da sua varanda à cena do filho da vizinha aos berros, o skate tava partido e a mãe não ia dar outro até o Natal, as coisas não estavam boas em casa e ele tava pensando que ela era milionária? Continuou assistindo à tragédia do garoto e à cachoeira de lágrimas que escorria em seu rosto. Mas criança é idiota mesmo.

            Estímulo que provoca rememorações são as tardes de domingo. Eu duvido muito que o apocalipse será capaz de produzir nas pessoas um exame de consciência semelhante ao dessas horas. E, que eu me lembre, sempre foi assim.  Até os dois anos eu nunca punha os pés descalços no chão. Minha mãe se lembra muito bem, os pés branquinhos, branquinhos, você nunca tirava aqueles sapatinhos pretos que ganhou de aniversário; a gente morava no sítio e depois que começou brincar com os moleques, começou usar chinelo, daí, bem, todo fim de semana você perdia um par.


            O meu pai era um homem muito severo e nunca hesitou em se valer de suas estratégias corretivas. Não admitia que houvesse desperdício das coisas em casa. Pode-se dizer que, dada as condições da época, essas perdas eram tidas por ele como coisa gravíssima, assim aplicava a pena do mesmo modo.  Aos dois anos, assim como todos os anos até eu parar de brincar com os moleques, eu estava pouco me lixando para os chinelos no início do fim de semana. No entanto, não sei dizer quanto tempo depois, na medida em que o sol do domingo ia baixando, despontava um certo desespero velado, que invadia minha alma e que não parou junto com as brincadeiras...