domingo, 18 de outubro de 2015

Capítulo 8 - Freddy e Eu

Frase: mais vale a vida que duas bolas
Música: Dogs, Pink Floyd

Freddy, um sujeito canino muito pacato para quem o vê de longe, ao meu lado, trotando à guia curta, por ocasião de seus passeios sanitários matinais ou vespertinos; ou ainda, para quem o surpreende em um de seus frequentes cochilos, quando seu corpo tremelica, no que penso, sonhando com gatos, ratos, chinchilas e coisas de cachorros, pois bem, esse Freddy, minha gente, é um cara mau. Não mau como o Marley, que em vida destruiu sofás e engoliu objetos – embora meu canídeo também tenha feito isso com tal, senão maior, maestria – não... não mau dessa forma, já que essas coisas, vistas com a complacência que todo animal doméstico merece, não passam de travessuras engraçadinhas, das quais os donos, a despeito dos prejuízos, se orgulham ao narrar (engordando a poupança com a venda dos livros, é claro). Falo, amigo leitor, de maldade pura mesmo, maquiavelismo animal, um ódio primordial instintivo e seletivo, que definitivamente o envia para longe do rol dos cães sociáveis e que, ao contrário do que ocorre ao humano do Marley, tem me gerado despesas constantes, uma inclusive bem recente, logo falo dela. Há quem (minha mãe) atribua isso à sua origem, meia pitt bull, meia akita; eu sou menos determinista e creio se tratar de uma maldade planejada e por diversão sádica.


  Quando me lembro das duas vezes em que esse malfeitor comeu o banco da minha moto, ou quando ele destruiu uma almofada que, furtivo, subtraiu de nossos olhares, ou ainda das inúmeras vezes que carregou e escondeu chinelos e tapetes pelo quintal, sem contar da destruição semitotal da já velha pintura do veículo paterno, não é sem afeto e um risinho leniente que o faço. Essas traquinagens, totalmente perdoáveis, são o que de mais divertido nossos amigos peludos podem oferecer. Seria bem legal poder parar a história por aqui e ter apresentado mais um cachorro como os outros. Mas não, o devorador de bancos não é um animal comum. Torno a dizer: ele é mau.

Seu comportamento nos primeiros dias em nosso convívio já denunciava um ser frio e calculista, que não poupava esforços para mordiscar os calcanhares das vítimas na menor das distrações, quase sempre de nós mesmos de casa ou os de alguma visita esporádica. Acresça sua disposição inata para pular nas pessoas com destreza tal que a presa, depois de tentar em vão se desvencilhar de suas patas e desviar das mordidas nas mãos, se dava por vencida e clamava pela ajuda de um terceiro. É bem verdade que algumas pessoas se tornaram amigas dele, sobretudo as que passavam pelo muro da antiga casa e ofereciam cafuné ou um biscoitinho, no entanto, como eu disse, seu ódio é seletivo e não tardou para que ele fizesse sua primeira vítima.

 Lembro-me de estar em viagem e receber uma ligação do meu primo, que era vizinho na época, narrando as peripécias que o meu quadrúpede vinha promovendo nos entornos, após sua fuga por uma brecha do portão. Dois foi o saldo de feridos dessa feita e a um deles me coube assegurar os custos dos medicamentos, bem como visitas frequentes para acompanhar o desenrolar da situação, além de um boletim de ocorrência por que tive de prestar esclarecimentos pouco tempo depois. Daí pra frente, seguiram-se outros episódios de perseguição a transeuntes, susto a pedestres distraídos e, já na nova moradia, ataques a convidados e até mesmo uma mordida bem marcante no braço de minha irmã - essa perdoada dado seu (o dele) estado temporário de entorpecimento pós doação de sangue. Foi há cerca de vinte dias, porém, o ponto alto da sua carreira de vilão canino e o segundo B.O. que o Freddy me rendia.

Durante um moderado, porém longo temporal que se estendeu pela madrugada, a tranca do portão que dá para a rua entrou em curto-circuito liberando sua abertura. Por conseguinte, nosso protagonista, que de bobo não tem nada, saiu de sua meditação soturna e ganhou o espaço público, onde deu início a um espetáculo que lhe renderia má fama por todo o bairro. Nós, que como quase todas as pessoas da cidade dormíamos àquela hora, fomos acordados por um telefonema da vizinha que dizia, desesperada, tê-lo visto às dentadas com um rapaz que por ali passava. Ao sairmos para a rua nada vimos, a não ser a silhueta do molosso que a essa hora ia desaparecendo no horizonte chuvoso. De pijamas mesmo, saí no encalço do meliante, que ao notar a perseguição acelerou o passo, de modo que não pude segui-lo por muito tempo.

Enquanto meus pés engrossavam com a lama da terra tombada dos terrenos do bairro e minha roupa ia ficando ensopada pela chuva, meu pai me alcançou de carro e começamos a patrulha pelas redondezas. Minha mãe foi a pé por outro lado e bem passamos uns vinte minutos a  procura do fujão até que minha mãe o surpreendeu no quintal de uma casa do bairro, brigando com outros de sua espécie e dando um tremendo susto na moradora que chegou a sair seminua de seu leito para averiguar o que se passava. Cerca de meia hora depois voltávamos para a casa indignados com a situação, enquanto o malandrão, apesar das feridas de batalha, parecia sorrir, zombando de nossas caras de palhaço. Ao menos foi essa minha leitura de sua boca aberta, dentes a mostra, agitação corporal, respiração ofegante e nenhum pingo de arrependimento nos olhos.

Dois dias depois apresentou-se a vítima, um rapaz muito bem-educado e que se esforçou para entender a situação. Além das marcas dos dentes em sua mão, ela também alegava ter tido seus fones de ouvido destruídos e um tênis rasgado, devido ao ataque. Dei-lhe o suporte necessário e pus-me a disposição para acertar os prejuízos e em breve certamente terei que me apresentar à delegacia para dar satisfações, já que o mordido, com toda razão, registrou uma queixa. O ocorrido só me fez ter certeza de minha tese: Freddy é mau. Dada essa conclusão, não me sobrou outra saída a não ser tomar uma atitude drástica. No dia seguinte encaminhei o criminoso à clínica e nesse exato momento ele usufrui de um belo colar em formato de cone para não lamber os pontos de sua cirurgia. Isso mesmo, nosso amigo perdeu seus testículos e, espero, a sanha por morder pessoas. E caso isso não seja um remédio, ao menos será minha vingancinha pessoal da noite em que ele nos fez de idiotas.

Por fim, não sei ainda se essa foi uma boa medida (quem já aplicou em seu animal poderia me contar nos comentários se houve mudança no comportamento), mas fi-lo porque temo sofrer represálias futuras e ter de me desfazer dele, e isso foi a única coisa que me ocorreu. Apesar de não admirar suas façanhas, e até já ter sido uma de suas vítimas, sei que meu amigão também é bem amoroso e não faz mais que seu ofício. Machado de Assis dizia que ofício de cão é latir e eu acrescento que o de morder também o é. Espero que daqui pra frente suas vítimas voltem a ser apenas os acolchoados que lhe servem de cama e os tapetes de minha casa ou ainda que ele aprenda a distinguir entre cidadãos de bem e invasores de quintal e possa desferir nestes sua ira canina.